Estudo associa risco de incêndios florestais na Austrália a alterações coloniais no uso da terra
Investigação publicada na Nature reconstrói 1.000 anos de fogo e vegetação em East Gippsland e liga alterações coloniais no uso da terra à vulnerabilidade atual aos incêndios florestais.
Os factos
- Investigação publicada na Nature por investigadores da Universidade de Melbourne em colaboração com a Gunaikurnai Land and Waters Corporation reconstruiu 1.000 anos de vegetação, fogo e erosão no Parque Nacional de Croajingolong, em East Gippsland.
- O estudo concluiu que a colonização provocou o aumento da temperatura do fogo, um aumento de quatro vezes na cobertura de eucaliptos, uma mudança de bosque aberto para floresta e o aumento da erosão do solo.
- A análise infravermelha do carvão nos sedimentos lacustres mostrou que os fogos culturais frios do período pré-colonial foram substituídos por incêndios florestais quentes após a colonização.
- O artigo conclui que restaurar a queima cultural e apoiar os Proprietários Tradicionais a cuidar do território é um componente essencial da mitigação do risco de incêndios florestais.
Investigação publicada na Nature a 7 de outubro reconstruiu os últimos 1.000 anos de vegetação, fogo e erosão no Parque Nacional de Croajingolong, em East Gippsland, uma das florestas mais propensas a incêndios do sudeste da Austrália, segundo o Phys.org. O trabalho foi realizado por investigadores da Universidade de Melbourne em colaboração com a Gunaikurnai Land and Waters Corporation. O autor principal, Michael-Shawn Fletcher, professor da Universidade de Melbourne, afirmou que a investigação fornece provas científicas do valor da queima cultural e da necessidade de integrar o conhecimento indígena nas estratégias contemporâneas de gestão de incêndios.
Os investigadores concluíram que a colonização provocou alterações em cascata: aumento da temperatura do fogo, um aumento de quatro vezes na cobertura de eucaliptos, transformação de um bosque aberto em floresta e aumento da erosão do solo. A análise infravermelha do carvão preservado nos sedimentos revelou as temperaturas passadas dos fogos, mostrando que os fogos culturais frios do período pré-colonial foram substituídos por incêndios florestais quentes após a colonização. O estudo afirma que as transformações da terra são anteriores às alterações climáticas provocadas pelo homem e que a atual vulnerabilidade das florestas de eucaliptos do sudeste da Austrália aos incêndios florestais é fortemente influenciada pelo legado colonial do uso da terra.
Fletcher afirmou: «Quando o território é cuidado, o clima não determina os incêndios florestais.» Disse que o povo Gunaikurnai cuidou do território no que é hoje o Parque Nacional de Croajingolong através da queima cultural durante milhares de anos, mantendo grande parte da paisagem como bosque aberto. Disse que os registos climáticos mostram que estações de condições meteorológicas de incêndio comparavelmente perigosas, como as observadas durante a Quarta-feira de Cinzas e o Sábado Negro, se repetiram na região repetidamente antes da colonização, mas a paisagem aberta mantida pela queima cultural protegeu a terra de incêndios catastróficos.
Fletcher afirmou que a maior parte da discussão sobre a crise de incêndios florestais na Austrália se limita às alterações climáticas e que o trabalho mostra o que preparou o terreno para ela, descrevendo a expansão e o adensamento da floresta que carregaram a paisagem antes de o clima começar a mudar. O artigo conclui que restaurar a queima cultural e apoiar os Proprietários Tradicionais a cuidar do território é um componente essencial da mitigação do risco de incêndios florestais.
O ancião GunaiKurnai Uncle Russell Mullett, da Gunaikurnai Land and Waters Corporation, afirmou que os Ancestrais Gunaikurnai nasceram com towera (fogo), que estava entrelaçado com a vida quotidiana prática dos Antigos no território. «Não tratar o território com towera torna o território extremamente perigoso para os GunaiKurnai, os animais e as plantas», afirmou Mullett. Disse que estudos como este fornecem provas científicas sólidas para apoiar iniciativas de gestão da terra com towera para o território.
Segundo o Phys.org, o estudo aborda também uma questão cultural mais ampla sobre o conceito de natureza selvagem, que o artigo descreve como uma ideia cultural e ambiental poderosa que descreve uma terra em grande parte intocada pelo homem. O artigo afirma que o Parque Nacional de Croajingolong tem sido há muito tratado como natureza selvagem intocada.
Contexto
A queima cultural é a prática que o estudo descreve como utilizada pelo povo Gunaikurnai para cuidar do território ao longo de milhares de anos, mantendo grande parte da paisagem como bosque aberto. Os investigadores afirmam que, quando a colonização pôs fim a esse cuidado, a floresta expandiu-se e adensou-se, carregando a paisagem de combustível.
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